EUSEBEIA
A piedade helênica
Na ética religiosa do mundo helênico, poucos conceitos são tão ricos e profundos quanto Eusebeia (εὐσέβεια), palavra grega, comumente traduzida como “piedade”, mas que sua complexidade vai muito além da mera devoção ou fé. Para os antigos helenos, Eusebeia era sobretudo a ação correta, conduta adequada diante dos Deuses, dos ancestrais, da pólis e da ordem cósmica. Era, portanto, um valor que moldava tanto a vida religiosa quanto a conduta moral e social dos indivíduos.
O termo Eusebeia deriva da junção de eu- (bem, corretamente) e sebomaie (reverenciar, adorar, respeitar). Trata-se da prática correta do culto, do cumprimento das obrigações rituais e do reconhecimento devido à superioridade dos Theoi. Ser eusebes (εὐσεβής; piedoso) não era apenas ser um adorador fiel, mas alguém que agia com moderação e consciência do seu lugar no mundo, por isso, para os gregos, o que importava não era crer corretamente, mas agir corretamente, ou seja, praticar os ritos com a devida honra, no tempo apropriado, conforme a tradição herdada dos antepassados.
Mais do que um valor individual, a Eusebeia era um traço fundamental da vida comunitária. Os gregos concebiam o Cosmos como uma estrutura ordenada onde cada ser tem seu lugar: os Deuses no topo, os homens abaixo, e todos interligados por relações de honra e reciprocidade. Praticar a Eusebeia era viver em harmonia com essa ordem.
Também é importante destacar que, para os gregos, tanto o excesso quanto a carência podiam ser perigosos. A negligência das obrigações religiosas era chamada de Asebeia (ἀσέβεια), a impiedade. A pessoa impiedosa não era acusada de falta de fé, mas de insensatez, desrespeito e arrogância. Não cumprir os ritos, desprezar os Deuses ou agir como se fosse autossuficiente eram atitudes vistas como falhas morais graves. Sócrates, por exemplo, foi condenado em parte por Asebeia, ao ser acusado de não reconhecer os Deuses da cidade.
No extremo oposto da Asebeia estava a Deisidaimonia (δεισιδαιμονία), isto é, a superstição ou o medo excessivo dos Deuses. Enquanto a impiedade ignorava os Deuses, a superstição os temia ao ponto de cair na paranoia e na obsessão. Uma pessoa dominada pela Deisidaimonia executava rituais compulsivamente, temendo punições por qualquer erro mínimo, como se os Deuses fossem tiranos impiedosos e voláteis. Mas os gregos acreditavam que os Theoi eram nobres, justos e sensíveis à sinceridade dos devotos. Um culto excessivamente temeroso era visto como degradante, não apenas para o humano, mas também para o próprio Deus. A verdadeira Eusebeia é equilibrada: reconhece a autoridade divina, mas sem servilismo; age com reverência, mas sem se tornar escravo do medo e oferece com constância, mas sem exageros.
Juliano, o Filósofo, escreveu que “O zelo em fazer tudo o que está ao seu alcance é, na verdade, uma prova de piedade”. Ou seja, não se trata de fazer o impossível, nem de grandes rituais elaborados, a piedade se revela no cotidiano: acender uma vela com intenção, pronunciar os nomes dos Deuses com respeito, ofertar um pouco de vinho. A grandiosidade está na intenção e na regularidade, não na ostentação.
Entre os helenos, Eusebeia também se manifestava nos laços familiares. Honrar os pais, cuidar dos mais velhos, preservar o nome e a memória dos ancestrais, tudo isso era parte do mesmo conjunto de obrigações sagradas. A pessoa verdadeiramente piedosa respeitava os Deuses, mas também os vivos e os mortos — os vivos por dever cívico e os mortos por reconhecimento de sua importância. A piedade, portanto, não era apenas uma virtude religiosa, mas um modelo ético de convivência e civilidade.
Atualmente, a prática da Eusebeia continua acessível, especialmente para quem segue o Politeísmo Helênico. Ela pode ser incorporada em nossa vida de forma simples: manter um altar doméstico, oferecer libações de vinho, leite ou água, participar dos festivais tradicionais, acender incensos em oferta aos Deuses, entoar hinos. A beleza da Eusebeia está em que ela não exige perfeição, mas sinceridade. Trata-se de viver com respeito diante do divino, sem negligência e sem exagero.
Como daimon, Eusebeia é esposa de Nomos (a Lei) e mãe de Dikê (a Justiça). Em algumas fontes, ela também é descrita como filha de Zeus ou Nix. Sua contraparte era Dissibeia (Impiedade), mãe de Hybris (Orgulho Excessivo). Seu equivalente romano, Pietas, tinha um importante papel na sociedade. Para os romanos, pietas era uma virtude que residia dentro do indivíduo, permitindo-o cumprir seus deveres para com os Deuses e seus semelhantes de forma plena e equilibrada. Dessa forma, eusebeia está intimamente conectada com dois outros importantes pilares helênicos: sophrosyne (moderação) e a própria dikê (justiça). Assim, uma pessoa piedosa é também uma pessoa justa, reconhecendo e respeitando o seu lugar no Cosmos.
Como expressão do senso de ordem e equilíbrio para com os Theoi, é importante mencionar alguns excessos que, por vezes, um iniciante no Politeísmo Helênico se submete. Os motivos para a asebeia e a deisidaimonia podem ser muitos, mas um deles pode estar relacionado com antigas crenças e comportamentos que, sem que possamos perceber, moldam nossas opiniões sobre o Divino e como temos que nos submeter ao sagrado. Pode ser que, ao iniciarmos no Helenismo, ainda estaremos tomados pela asebeia e a deisidaimonia — dominados pela incerteza, pela indiferença ao sagrado ou medo do Divino. Devido às experiências não tão agradáveis com outros caminhos espirituais, há a possibilidade de chegarmos diante dos Theoi tomados pelo medo e pela superstição — ou, até mesmo, pelo seguinte pensamento: Os Deuses não existem.
Em ambas as situações, devemos ser gentis conosco mesmos e, aos poucos, nos despir de conceitos limitantes e crenças que não correspondem ao Helenismo. É importante lembrar que, como brasileiros e praticantes do Politeísmo Helênico no século XXI, não nascemos, obviamente, moldados conforme a cultura grega antiga — onde a presença dos Theoi podia ser sentida desde o berço e nas mais simples práticas do dia a dia. Portanto, conhecer a si mesmo e se aprofundar nos estudos acerca das antigas crenças e práticas dos helenos é o primeiro passo para estabelecer o equilíbrio interior; para que, assim, a eusebeia possa ser vivenciada. Ao encontrarmos essa ordem interna, vislumbramos o nosso lugar no Cosmos, contribuindo para a harmonia da comunidade e da Humanidade na totalidade.

A impiedade, como dito, não significa necessariamente ateísmo; e sim arrogância, desmedida e insolência — em grego antigo, ὕβρις (hybris), a própria transgressão dos limites estabelecidos pela ordem cósmica. Por outro lado, a deisidaimonía (δεισιδαιμονία), palavra composta por δείδω (temer) e δαίμων (espírito/ divindade), deixa claro em sua própria etimologia o que deve ser evitado: o medo. Acrescento também o apego — apegar-se excessivamente a uma divindade específica, exagerando em rituais e orações, por medo da devoção se perder em meio à própria insegurança. Assim, a superstição está presente quando o praticante tem uma visão distorcida do sagrado; sem o conhecimento e a prática necessária da piedade. Esses excessos tornam-se perigosos para a nossa kharis, pois uma boa relação com os Theoi é baseada na reciprocidade, no respeito mútuo, na graça e no eros que nos une ao Divino. Portanto, não há kharis sem eusebeia. Nada adianta as práticas rituais externas (threskeía) sem a piedade e a reverência verdadeira. Dessa forma, não basta crer nos Deuses corretamente, mas sim praticar corretamente os ritos, honrar a Lei e a Justiça que institui o metron — a justa medida de todas as coisas.
Referências:
THEOI GREEK MYTHOLOGY. Eusebeia: Greek goddess or spirit of piety, duty & filial respect. Acesso em: 20 jul. 2025.
THEOI GREEK MYTHOLOGY. Dyssebeia — Greek Goddess or Spirit of Impiety (Roman Impietas). Acesso em: 20 jul. 2025.
THEOI GREEK MYTHOLOGY. Dike — Greek Goddess Hora of Justice (Roman Justicia). Acesso em: 22 jul. 2025.






