ARETÉ
A busca pela excelência

A areté (ἀρετή), um dos principais pilares da ética helênica, traduzida como “excelência” ou “virtude”, era um conceito fundamental na cultura grega antiga, relacionado sobretudo à educação humana (paideia), e referia-se a um conjunto de qualidades que compunham um ideal de valor e excelência humanos. Para além de uma simples virtude moral, a areté é a excelência cultivada em diversas esferas da vida humana: no corpo, na mente e na alma. É o ponto máximo de aperfeiçoamento que um indivíduo pode alcançar. Hoje, entre os praticantes do Politeísmo Helênico, a areté permanece sendo um dos conceitos mais importantes, servindo como um guia para uma vida mais virtuosa, íntegra e, consequentemente, em harmonia com o Cosmos e os Deuses. Ela não é um conceito meramente teórico, mas sim extremamente prático, que deve ser buscado constantemente em nossas vidas. Viver com excelência requer um esforço consciente e um compromisso diário de cultivar a virtude em nossa alma por meio de nossas ações, sejam elas cotidianas ou não.
Na antiga Hélade, o conceito de areté estava fundamentado não só em uma vida nobre e digna, mas também na função social e no papel que o indivíduo exercia na comunidade em que estava inserido. Ser excelente significava realizar com perfeição aquilo que se esperava de sua posição no mundo. Na tradição homérica, por exemplo, a areté estava associada à coragem, à honra e ao desempenho heroico, qualidades fundamentais para guerreiros como Aquiles e Odisseu. Para eles, a excelência era demonstrada em atos de bravura, lealdade e habilidade, refletindo a glória (kléos) que marcaria seus nomes na memória coletiva, na história, e, em alguns casos, os elevaria ao patamar de daimones, recebendo culto heroico após a morte. Com o tempo, filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles ampliaram a compreensão da areté. Em Platão, a excelência estava ligada à alma racional e ao ideal de justiça. Para Aristóteles, a areté era alcançada por meio da prática das virtudes éticas, como a coragem, a temperança e a generosidade, sempre guiadas pela razão e pelo equilíbrio, aquilo que ele chamou de mésotes, o meio-termo.
Além disso, a verdadeira felicidade (eudaimonia), segundo Aristóteles, só poderia ser atingida por quem cultiva a areté, pois ela é o florescimento do ser humano em seu potencial máximo. No contexto religioso do Politeísmo Helênico, buscar a areté é também honrar os Deuses por meio de uma vida justa, nobre e equilibrada. Não se trata de perfeição absoluta, mas de um esforço constante por autossuperação e alinhamento com a ordem divina (Cosmos). Praticar a areté é oferecer aos Deuses um espírito digno de ser elevado e, como já citado, em certos casos, digno de se tornar um herói. Por isso, nos cultos contemporâneos, especialmente entre os helênicos reconstrucionistas, a areté é mais que um ideal ético: é um modo de vida. Ela orienta a prática religiosa, o relacionamento com os outros e consigo mesmo, e se reflete no cuidado com a comunidade, no respeito às leis sagradas (nomoi theioi), e na busca por sophrosyne (moderação), dikaiosyne (justiça) e eusebeia (piedade).
Há um mito específico que demonstra bem o conceito de Areté e a escolha do praticante (e do herói) em seguir o caminho virtuoso. Nesse mito, Héracles (Hércules) é apresentado como um jovem que ainda não escolheu qual vida levaria. Ao sair para um lugar tranquilo para refletir sobre o seu caminho, Areté e Kakia — daimones da Virtude e do Vício, respectivamente — surgiram como duas mulheres de grande estatura, propondo ao jovem Héracles caminhos distintos:
[…]
Hércules: Senhora, qual é o seu nome?
Kakia: Meus amigos me chamam de Felicidade, mas entre aqueles que me odeiam, sou apelidada de Kakia (Vício).
Areté: Eu também vim até você, Hércules: conheço seus pais e observei seu caráter durante o período de sua educação. Portanto, espero que, se você seguir o caminho que leva a mim, você se tornará um bom praticante de atos elevados e nobres, e eu serei ainda mais honrada e mais ilustre pelas bênçãos que concedo. Mas não o enganarei com um prelúdio agradável: antes, direi a verdade das coisas que são, como os Deuses as ordenaram. Pois de todas as coisas boas e belas, os Deuses não dão nada ao homem sem trabalho e esforço […] (Xenofonte, Memorabilia)
Quando falamos de areté, a imagem do herói forte e glorioso vem à nossa mente. Um herói como Héracles, na Hélade, era o exemplo vivo do que o ser humano poderia alcançar em vários níveis: um corpo vigoroso, a mente equilibrada, um coração nobre. Os grandes heróis, ao tornarem-se modelos para a excelência humana, demonstravam que por trás das virtudes há escolhas — que de início podem parecer pequenas, inocentes ou perversas: depende do autor da proposta e do caráter daquele que fará a escolha. A areté é, sem dúvida, o ponto de partida para as escolhas virtuosas. Os heróis das histórias populares gregas não eram perfeitos, mas reconheciam a divindade dentro de si. Eles sangravam e caíam, mas se recusavam a baixar a espada. Eles nos mostram que, por trás de um belo conceito filosófico, está a prática constante.
No interior de todo ser humano existe um herói ou uma heroína em potencial. É essa parte de nós — que não enxergamos no espelho, mas podemos sentir quando uma situação exige — que nos guia e nos dá força diante dos desafios da vida. Que enfrenta os monstros, que nos traz ânimo para erguer o escudo e lutar quando nos encontramos de repente em um campo de batalha. Não uma batalha física; mas o combate que travamos dentro de nós mesmos. Essa batalha interior nos exige a força e a coragem que só um herói tem o poder de despertar. Ninguém lutará por nós, nem mesmo os Deuses. No entanto, eles podem nos erguer a mão; nos soprar um conselho com suas belas vozes — por meio de um sentimento, um insight, uma obra de arte ou uma brisa suave que bate em nossos rostos. Nesses momentos, podemos ver Pallas Atena nos observando com seus olhos brilhantes, nos inspirando sabedoria, força e o foco necessário para continuar lutando. Afinal, os Deuses não dão nada ao ser humano sem trabalho e esforço.
Esse esforço começa por dentro, ao reconhecermos nossas falhas e nossos vícios. E lá está Apolo, sorrindo para nós enquanto afina sua lira: Conheça-te a ti mesmo, ele nos diz. Olhamos para a lira, cuja melodia harmoniza o Cosmos. Os Deuses não nos exigem perfeição, mas nos inspira a disciplina necessária para que possamos nos manter em equilíbrio. A Harmonia do Corpo, da Mente e da Alma. É fazer aquilo que está de acordo com a nossa natureza, seguindo a nossa própria essência, valorizando a nós mesmos e reconhecendo nossas habilidades. Enquanto Apolo toca a sua lira, a beleza vem ao seu encontro — e assim a amorosa Afrodite aconselha a sermos mais gentis conosco mesmos. Pois nada adianta o esforço constante sem o amor próprio. areté também é a justa medida, o nada em excesso. Podemos errar sem nos torturar; podemos praticar nossas habilidades, mas sem perfeccionismo.
A Excelência, ao nos encaminhar à realização da nossa própria essência, nos leva à Eudaimonia — ao estado de plenitude, à felicidade genuína. Não aos Vícios, que nos presenteiam com prazeres momentâneos e excessivos; oferecendo-nos uma falsa felicidade. A verdadeira areté está no esforço constante, na autossuficiência, mas também na nossa relação com os Deuses. Ao nos elevarmos a Eles, desenvolvendo nossa kharis, tomamos consciência de que fazemos parte da grande orquestra divina. Nos reconhecer como parte legítima do Cosmos e nos desenvolver como seres humanos é um ato de devoção; é sorrir para os Deuses e demonstrar o nosso amor por Eles — e assim reconhecê-los, também, como uma parte viva dentro de nós.
Referências:
RODRIGO, Lidia Maria. A areté como ideal formativo da paideia grega. Revista Sul-Americana de Filosofia e Educação. Número 26: maio–out./2016, p. 120–132.
THEOI GREEK MYTHOLOGY. Arete. Disponível em: https://www.theoi.com/Daimon/Arete.html






